Era dia de acordar cedo. Madrugada de quinta-feira, 3h. Estava preparado para uma viagem de trabalho, passagem aérea comprada, agenda feita, malas arrumadas, notebook, pen drive, documentos e relatórios. Na cabeça, já o pensamento focado nos compromissos, nas obrigações da viagem, na expectativa dos bons resultados.
Sim, mas para realizar tudo aquilo, existia um percurso bem pequeno a ser cumprido, o trecho mais curto da viagem. Sair da minha casa e chegar ao aeroporto de Natal. Qual era a importância para mim daquele trecho? Algo próximo de sair do quarto da casa para a cozinha. Ou seja, nem me lembraria horas depois.
Levantei-me, bem cedo, e chamei minha esposa para me acompanhar. Como sempre, ela preferiu que eu dirigisse o carro. Mala, computador, documentos de embarque, tudo pronto, seguimos em frente. Iniciamos o trecho pela BR 101, com a estrada vazia. Logo no primeiro quilômetro, percebi que havia alguns entulhos na pista, estavam bem visíveis. Do outro lado da BR, algumas luzes diferentes, movimentação. Reduzi a velocidade, imediatamente. Já avistara muitos acidentes em minha vida. E sabia da importância de ficar atento para não atropelar alguém ou provocar outro acidente.
Enquanto me preocupava em desviar de um poste caído na pista, de repente, senti uma forte pancada na traseira do meu carro. Esforcei-me para manter firme o volante, enquanto o carro era jogado, bruscamente, para frente. Barulho horrível de ferro a se contorcer, coisa quebrando. O carro não capotou, já dei graças a Deus. Parou, aquietou-se, voltado ao contrário, ainda no meio da pista. Olhei do lado, e vi que estávamos bem. Dei graças a Deus mais uma vez. Todos gritavam, falavam, falavam, tentando abrir a porta, querendo ajudar. Minha porta não abria; meu pescoço doía, da mesma forma que as pernas e a coluna. Consegui sair do carro, em meio a gritos. O meu olhar varria o cenário, mas o cérebro estava concentrado numa agenda de viagem, em compromissos que seriam cumpridos bem cedo. Estava muito tonto e confuso, mas precisava me lembrar das coisas que levava para a viagem. Quanto ao veículo, já estava perdido mesmo, nem me importava mais. Então, com ajuda de Anjos Enviados, conseguimos sair da área de perigo. Alguns objetos ainda foram recuperados do interior do carro contorcido e amassado. Tentei entrar na ambulância do SAMU, mas havia uma pessoa bastante grave, sendo removida, preferencialmente. Fomos, então, de carona com Daniel Burgos (um colega de escola do meu filho, que nos prestou socorro), ao Hospital do Coração, que se localizava, ali, bem próximo.
Chegamos bem ao Hospital, em termos, pois as minhas dores aumentavam. O atendimento foi rápido, fui colocado numa maca, apalpado pelo Médico de Plantão. Segui, então, de maca, até o raio X. Aquele trajeto foi muito longo. Olhava apenas para o teto, se movendo, e a memória me trazia lembranças, daquele mesmo lugar. Embarguei a garganta, mas consegui segurar. Porque deveria fraquejar? Fiquei me perguntando. E até me repreendendo. Mas, a resposta não estava a meu alcance.
Afinal, boas notícias vieram com os exames, nada estava quebrado. Porém, continuava doendo. Fui medicado, e passei o resto da noite no hospital. A cabeça, que já estava a mil, começou a contabilizar tudo, todas as perdas e mudanças que o acidente me impôs.
Mas, os segredos, próprios das vitórias, também se revelariam. Eu estava tranqüilo com a minha consciência. E isso me fez bem. Tranqüilizou-me refletir sobre meus próprios atos. No dia anterior, tinha regularizado o meu seguro vida, meu carro também estava totalmente coberto por outro seguro. Lembrei dos meus procedimentos, guiando corretamente o veículo. Aliviei-me, por levar apenas mala e equipamentos (que ficaram destruídos pelo impacto) no banco de trás do veículo, onde costumeiramente viajam meus filhos.
Quanto ao causador da batida, o condutor que abalroou a traseira do meu veículo e fugiu do local, não consigo relevar sua conduta irresponsável. É provável que estivesse embriagado, ou que imaginasse ter matado alguém com sua imprudência.
Percebi que as perdas, afinal, foram somente materiais. Tudo o que mais valia estava bem salvo. E, como havia muitas maravilhas permanecidas, agradeci muito a Deus. Principalmente, por Ele ter-me socorrido pelas mãos de tanta gente de boa vontade, e também ter-me ensinado a importância de fazer a minha parte.
